Morando sozinho

28 mai

Para muitos, a experiência do Ciência sem Fronteiras também é a primeira experiência de morar sozinho. E mesmo para os mais experientes, uma nova variável é adicionada: morar sozinho em um país estrangeiro. Isso implica em não ter uma lavanderia dentro do apartamento, ter que cozinhar, fazer faxina, fazer supermercado (onde os produtos são diferentes), conviver com os housemates… E é aí que nós, pobres estudantes, vivemos entre máquinas jorrando água com sabão e macarrão com salsicha.

Um pobre CsF anônimo, foi fazer suas 1as compras de supermercado, e ao comprar o básico para sobrevivência de qualquer estudante (macarrão, carne moída e molho de tomate), resolveu fazer sua própria comida para o jantar e almoço no dia seguinte (comer na universidade é muito caro). Foi fazer sua carne moída no molho de tomate quando, de repente, sentiu um cheiro de queimado. Foi até a cozinha e lá estava a panela queimada e o mau cheiro. Eis que esta blogueira que vos escreve vai ao socorro do rapaz no dia seguinte, para ensinar-lhe a fazer uma carne moída. Quando olho a lata de molho, o diagnóstico: tomato soup!!! Igualzinha a do Andy Warhol… O coitado já começou com os ingredientes errados e terminou por deixar a carne na panela sem mexer…

Usar uma lavanderia coletiva, no início, é tarefa para poucos. Aí os TOC de plantão vão perguntar: “Mas, Aline, máquina que todo mundo põe a roupa não é nojento?” Sim, senhores, bastante. Mas a secadora é pior porque a sujeira fica grudada no filtro… E eu não sei de vem tanta sujeira, se a porcaria da roupa deveria estar limpa, mas ok. Na máquina tem dois lugares de colocar moeda: uma pra máquina e uma pra secadora, até eu descobrir isso, perdi alguns dólares. A cada vez que lavo roupa preciso levar 4 coisas:

1 – A roupa

2- As moedas

3- O sabão em pó

4- O cartão magnético/chave do apto

O que acontece quando eu esqueço uma dessas coisas? De baixo pra cima:

4- Fico trancada do lado de fora… é uma bosta, tenho q pedir pra alguém da recepção vir abrir.

3- Normalmente eu só percebo que esqueci esse item depois que enfiei todas as roupas na máquina, ou seja, nunca volto pra pegar o que me faz usar algum sabão em pó que esteja dando sopa na lavanderia. O problema foi quando eu usei o líquido e acabei colocando um pouquinho a mais e aí, já sabem, meio que inundei a lavanderia com água de detergente. Dava até pra brincar de escorregar no sabão… Peguei minhas roupas botei em outra máquina e fingi q não era comigo hahahaha (a água ia secar de qualquer jeito).

2- Malditas moedas… Essa eu tenho q voltar pra pegar. A não ser o dia que uma alma caridosa me deu 1 dólar no elevador.

1- Porra, nem sou tão esquecida assim!

E para encerrar o item roupa: CsF anônimo queimou metade das blusas tentando passar roupa… Ainda bem que eu não faço isso! Rááá

Outro desânimo para nós, pobre estudantes, perdidos no 1o mundo, é arrumar nosso cafofos. Eu, que não divido o quarto com ninguém tem total liberdade e privacidade de… fazer bagunça!!! O pior é que fica cada vez pior, por que a preguiça chama preguiça e quando a gente vê, a bagunça saiu do nosso controle. Mas eu ainda acho que existe um monstro da bagunça, uma espécie de bicho papão pós puberil, que invade nosso barraco a noite e joga nossa roupas no chão, deixa a louça acumulada no cantinho da mesa, a toalha molhada em cima da cama… Tem Csf anônimo que guarda cueca em cima da TV… Eu, por exemplo, comecei a ver o fato do Mike vir pra cá no fim de semana um incentivo para realizar  a arrumação, ou como ele diz, colocar a bagunça em um nível aceitável. Mas, como diria minha housemate Miranda, se ficar limpo demais não parece um lar, parece mais um hotel. E eu tenho que concordar… Casa é aquele lugar que você volta todo dia e o hotel é só um canto que você passa uns dias enquanto está de férias.

Em suma (adoro essa expressão, porque suma parece sumo, que me lembra suco, que não tem natural aqui na Austrália hahaha), além de ter que estudar, temos que lidar com esse pequenos obstáculos do dia-a-dia, o famoso “se virar”. Como diria mamãe: “se vira, tu num é quadrado!”

 

Have some faith in yourself

16 mai

Sinto que meus últimos posts amedrontaram o pessoal que está almejando o CsF. Me sinto mal, em parte, pois não gostaria de desanimar ninguém, muito embora todos devessem vir com a idéia de que nem tudo é uma maravilha. Tendo isso em mente, basta esforço e dedicação que o resto dá certo (espero). E no final, é claro, tudo vale a pena, e mesmo as experiências ruins servem de aprendizado.

O negócio é que eu só escrevi sobre experimentos que não deram certo, notas ruins, feedbacks ruins, aulas difíceis. É claro que não é só isso que permeia a vida acadêmica dessa CsF blogueira. O western blot que não deu certo, por exemplo, eu apareci no dia seguinte no lab com a auto confiança do tamanho de um grão de areia, pensando que as pessoas iam ficar bravas comigo ou achar que sou alguma retardada (a parte de montar os géis é o mais fácil de tudo e é algo bastante corriqueiro). Quando cheguei, foi justo o contrário. Com certeza, eu fui a piada do lab de manhã, porque todo mundo ficou sabendo que eu lasquei com tudo só porque eu não agitei o tubo com o gel. E esqueci de por os pentes… O povo ficou com aquele risinho contido que foi uma beleza. Aí eu fiz tudo de novo, dessa vez agitando o gel e cantando mentalmente: ” Ela balança mas não para”… E, funcionou! Ou seja, provei experimentalmente a função do funk (axé também pode ser utilizado) na ciência!!!

Daí guardei as plaquinhas com o gel, todo bonitinho na geladeira, com meu nome escrito (yay). E ainda ajudei a montar as laminas do tumor que eu vi colhendo do paciente no hospital (oh yeah) para a microscopia confocal (não vou poder ver, dorgas). E ninguém me achou retardada, hoje, tive ainda mais coisas para fazer! Fiz o carregamento das amostras, botei na eletroforese, saiu bem direitinho as marquinhas do peso molecular na placa, enfiei tudo no sanduíche de celulose e transferi. Se esta última parte der certo, será meu primeiro Western Blot!!! vivaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Quanto às aulas, hoje tive uma aula maraaaaa, que todo clínico deveria ter, sobre a fisiopatologia do AVC. Finalmente entendi o que ninguém nunca soube me explicar: o edema cerebral. Sempre me perguntei por que diabos aparece água no cérebro… E isso é porque a isquemia causa excitotoxicidade, ou seja, faz com que o principal neurotransmissor excitatório, o glutamato, fique sendo liberado forever, excitando geral, depolarizando e causando aumento de Ca e Na. Junto com os íons, vem o q? A água. E isso é antes da resposta inflamatória, que agrava ainda mais o edema. Ou seja, não é que eu seja retardada, mas não acostumada com nada que não seja diretamente aplicado na clínica.

Essas foram só algumas das coisas boas que surgiram essa semana. Apesar de atribulada, como serão todas as próximas semanas, até o fim dos exames finais, algumas coisas surgiram e clarearam o pouco o cenário. Portanto, não desanimem!!!

Sei lá, a vida sempre tem razão

14 mai

Hoje saí de casa com o fone de ouvido tocando Tom Jobim e Miúcha. O céu ensolarado e o vento frio me acompanharam até o ponto de ônibus. Fiquei me imaginando uma personagem de alguma novela do Manoel Carlos (sim, eu tenho fixação em novela do Manoel Carlos), em que todos moram no Leblon, são ricos (a não ser as empregadas, que são pobres, mas felizes da vida e melhores amigas das patroas), caminham na praia. O núcleo médico é um show a parte. O hospital parece um shopping, os médicos são lindos, ricos e de bem com a vida. Nem os pacientes são realmente doentes, excetuando-se câncer ou acidente de carro.

O problema é só que comecei o dia personagem de novela e terminei personagem de Tropa de Elite. Já explico. Chego no lab, e dra Fiona diz: “ahhhh vc está aqui!!! Eu tenho uma missão pra vc!!!” Pensei: ” Missão dada é missão cumprida!” Tudo que eu tinha que fazer era começar a correr um gel pro Western Blot de um dos doutorandos. Peguei o papel que tinha escrito umas coisas ilegíveis sobre as amostras e fui correr atrás do indivíduo. Esse cara é o único médico perdido no lab, e é dermato (bleh). Cheguei e disse que ia fazer o experimento e ele fez uma cara descrente e só falou “ok, arrume todo o seu material primeiro depois me chama”. Com material, ele quis dizer os tais géis.

Comecei a fazer sozinha a arrumação das plaquinhas, fiz o gel, coloquei na placa e esperei forever até virar gel. Até virou, mas demorou mais que o normal. Quando deu 5 horas, fui ver como ficou e deu buraquinho, além disso a distância entre um gel e outro tava errada. Ou seja, deu tudo errado. Logo pensei na cara de incrédulo do bundão do doutorando. É deu errado, satisfeito?

Resolvi que ia fazer tudo de novo e desta vez, ia dar certo. Prestei mais atenção nas quantidades, chequei tudo e, desta vez, de novo, deu errado. Só que agora o gel não virou gel, at all. Já eram 6 e meia da noite e, Cheryl, que ficou comigo até mais tarde, falou pra deixar quieto que ela fazia no dia seguinte. Fui embora. Quando estava na porta do lab, a outra doutoranda (essa é legalzinha), perguntou por que o meu não tinha dado certo. Depois ficou me perguntando, vc fez isso, aquilo, e tudo respondi que sim. Aí, por último ela perguntou: vc agitou o gel antes do por na placa?

Silêncio

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Agora sei que devo misturar, balançar, agitar, rebolar, dançar funk até o chão com o tubo de gel.

Voltei pra casa, frustrada. Ouvi a mesma música que ouvia enquanto caminhava para o ponto e me imaginava em uma novela de manhã: é sei lá, a vida tem sempre razão.

Passe de mágica

10 mai

Primeiro, devo tecer algumas considerações:

- Recentemente obtive 501 visualizações em 1 dia só!!! Eu não sei como isso aconteceu, quando eu vi, o negócio tava bombando! rs De qualquer forma, agradeço a todos que perderam um pouco do seu tempo lendo minhas histórias, experiências, psicoses… Recebi comentários e mensagens no facebook fazendo elogios, tirando dúvidas… Sério mesmo, fiquei muito feliz. =)

- Por outro lado eu sinto que meio que abandonei o blog, meu bebê… Não que não esteja acontecendo nada, pelo contrário, tá acontecendo tudo e mais um pouco e por isso mesmo eu não estava conseguindo nem desenvolver um post. Ainda bem que agora o dedo coçou…

Por falar em coisas acontecendo, eu ando desejando uma varinha mágica que possa solucionar todos os meus problemas. Mini flash-back: há 6 meses, lá estava a pobre e inocente Aline sonhando com seus dias australianos, imaginando um filme da sessão da tarde com um título bonitinho tipo: “De repente Austrália” ou “Um sonho australiano” ou O diário da princesa  em que as pessoas passam por aventuras tipo se perder na floresta, quem era rico ficar pobre, quem era pobre ficar rico e descobrir que era uma princesa da família real de algum país imaginário da Europa… ok, fim do flash-back. Quando a gente chega aqui tudo cai por terra, nosso mundo desaba, a gente chega sem casa, sem amigos, sem família… correndo atrás de tudo sozinha mimimi. Depois é a parte de se sentir em casa, e como problemas fazem parte de se sentir em casa,  eles surgem como monstrinhos desafiando a sua paciência, auto estima e, principalmente, sanidade.

Como eu quero me manter sã (psicólogo é muito caro) preciso lidar com as frustrações e tentar encarar os vários desafios que vem por aí. Explico: recebi ontem meu horário de exames finais e farei nos dias 21, 22 e 23 de junho as 3 provas correspondentes às 3 matérias que estou cursando. Isso significa que: dormir é para os fracos e passarei 1 semana acordada   terei que estudar muito. Para cagar tudo de vez, não estou com as melhores notas so far, na verdade, quando junta com os trabalhos em grupo passo raspando no 50%. Pois é, taí uma coisa que ninguém fala no livro de rostos, mas eu falo aqui mermu, tô nem aí. Meu report veio com uma nota ridícula e uns comentários dizendo que eu era preguiçosa e não demonstrava conhecimento de fisiologia na introdução. Fui já adiantar e escrever a introdução do próximo report e mandar pra minha tutora tentar me ajudar e a mulher corrigiu fazendo uns comentários  bem pesados, dizendo, de novo, que eu não demonstrava conhecimento suficiente de fisiologia. Eu não fico chateada com ela em si, fico mais comigo mesma, que cheguei no 5o ano de faculdade de medicina incapaz de escrever uma introdução decente. Isso me faz questionar todos os meus planos para o futuro (o que fazer após a graduação).

A única coisa que me animou nessas notas escabrosas que recebi ontem, foi a apresentação oral do research approaches, que tirei 8 de 10 e fui melhor que meu coleguinha do mesmo grupo, que tirou 7. Ganhei um ponto extra por comunicação, eu acho. De qualquer forma, o mar não está para peixe.

O meu estágio no UQ Diamantina Institute é legal, embora seja sem prognóstico. Todo mundo é muito receptivo comigo, inclusive a supervisora, Dra Fiona, mas me sinto idiota a maior parte do tempo (assim como me sinto nas aulas aqui, na maioria das vezes). O projeto deles é fascinante, se tudo der certo, em alguns anos, eles entenderão como alguns pacientes não respondem ao tratamento com cetuximabe e o que eles podem fazer para que respondam, e, melhor, desenvolver outra linha de frente de tratamento, usando o próprio sistema imune para curar o câncer. O difícil, porém, é entender os experimentos e, às vezes, as técnicas que eles usam. A coisa fica muito, mas muito molecular.

Enfim, nunca me considerei uma pessoa burra, pelo contrário, sempre achei que tivesse alguma inteligência, não brilhante, mas capaz de me fazer passar pelos percalços da vida acadêmica sem maiores problemas, caso eu estudasse. Vejo que eu estava errada, muito errada. Mas, por outro lado, prefiro nem pensar em quando eu tiver que ir embora daqui.

 

Bem que podia existir uma pílula mágica para os problemas, igual existe para Miastenia Gravis:

I’m no Holly Golightly

22 abr

Meu último dia em Melbourne foi um dos melhores desde que cheguei na Austrália. Não consegui acordar cedo para acompanhar minha amiga francesa no passeio de caminhada na floresta em um parque qualquer. Ela me cutucou de manhã como sempre, e eu pouco responsiva, balbuciei palavras metade em português, metade em inglês. Ela disse: “vou sair 8 e 15, se quiser ir, te espero lá embaixo, mas EU TENHO que sair 8:15”. Pensei: “8 e 15, já entendi, francesa chata, não é 8 e 16”. Como meu Glasgow estava compatível com trauma crânio encefálico, resolvi ficar dormindo. Afinal, nem sou gringa pra gostar de mato.

Acordei quase meio dia e fui ao Queen Victoria Markets para meu brunch de sempre. Dessa vez, comi um borak, que é tipo uma esfiha fechada, só que grande, que me lembrou dos salgados da cantina do meu colégio. Só que na escola era enrolado. Depois resolvi ir numa feira de produtos indie/retrô/hipster/cool/contemporâneo barra qualquer outra coisa que vcs pensarem. No caminho, eu me perdi, é óbvio (se tratando de Aline), mesmo que eu tenha feito o mesmo percurso ontem.  O bom foi que caí na rua do Parlamento de Victoria, que foi o Parlamento federal por alguns anos, antes de construírem a capital Canberra. Aliás, é uma história meio parecida com o Brasil, a capital daqui também foi construída e planejada.

Depois de me achar no mercado, fui em direção a National Gallery of Victoria. Porém, sinto dizer que gostei mais da loja do museu do que do museu em si. Pode até ser ignorância minha, mas as galerias misturavam arte de diferentes períodos, assim como esculturas e objetos de época, como cadeiras, mesas, imagens sacras, jóias, etc. Talvez a melhor galeria seja a de arte contemporânea, onde tinha uma obra chamada escadas para o céu (Stairs to heaven), em que havia um espelho no chão e um no teto, e no meio, havia uma escada feita de mangueira plástica com luzinhas coloridas. O que acontecia era que um espelho refletia o outro e dava a impressão de que as escadas iam infinitamente ao teto.

Ao sair do museu, fui direto passear em Southbank (aqui também tem um). Tem quase a mesma visão do de Brisbane (o rio com suas pontes e os prédios no centro da cidade), com a diferença que é bem maior e mais cosmopolita. Restaurantes e bistrôs chiquérrimos, galerias com lojas de alto luxo, cassino… Paradoxalmente, vários artistas de rua fazendo truques e performances (fui até chamada para um), pintando, desenhando. Observei atentamente as pessoas nos restaurantes, o tilintar das taças de vinho, as risadas e as roupas sociais. Me senti como Holly Golightly tomando café da manhã em frente a vitrine da Tiffany’s. Será possível viver e sonhar com uma vida totalmente diferente?

Outra surpresa do dia foi no museu, onde um dos salões estava sendo arrumado para um casamento. O teto de mosaico e as paredes recheadas de arte abrigariam a confirmação de uma história de amor. Não estou dizendo que o casamento seja a única forma de fazer isso, aliás, nem sei qual a minha opinião sobre se casar. Mas, não vou mentir, me imaginei no lugar da noiva, me casando em um museu, dançando a primeira valsa no mesmo lugar que abriga quadros de Matisse, Picasso e Monet (mesmo que eles estejam misturados com arte sacra, mesa e talheres). Será possível viver e sonhar com uma vida totalmente diferente?

Depois desses sonhos todos, comi uma tortinha francesa numa patisserie bem charmosinha e voltei feliz para pegar o bonde de volta para o hostel. Afinal, I’m no Holly Golightly.

***

PS.: Em Melbourne, comemorei meus 2 meses de Austrália! Passa muito rápido!

Fotografias mentais

17 abr

Por cima de um dos cubículos da biblioteca eu conseguia vê-lo. Reparei nos cabelos loiros bem arrumados, a cabeça baixa e nos olhos azuis escuros concentrados no livro. Fiquei observando os ombros largos de menino asmático, que passou a vida fazendo natação, bem ajustados na camisa vermelha do Liverpool. Ele ergueu a cabeça e perguntou:

- Que foi?

- Nada não…

- Por que vc fica me encarando desse jeito?

- Eu gosto de tirar fotografias mentais. Aliás, que me perdoem os fotógrafos, mas fotografia é uma arte superestimada. A melhor imagem é a que fica na memória. Não é a toa que milhares de anos de evolução levaram a formação de células chamadas neurônios e conexões tão perfeitas como as sinapses.

Ele me olhou admirado e retrucou sorrindo:

- Verdade, para que câmeras quando se tem neurônios! Anyway,  I forgot you are a bloody doctor… You really know things. – adoro quando ele diz “bloody alguma coisa”

- Ok, agora volte para os seus números.

Ele ficou me olhando com uma expressão divertida, meio curioso por alguns segundos. Depois voltou a abaixar a cabeça e olhar fixo para o livro.

- Eu disse que era doida, Mike. Eu bem que te avisei.

 

 

PS.: Estou em Melbourne, em breve volto com notícias da cidade… Mas não esperem um guia, vcs sabem que tenho preguiça de tirar foto e não tenho vocação pra escrever guia turístico.

Às margens do rio Brisbane

10 abr

Hoje finalmente terminei meu relatório do experimento de eletromiografia. Passei dois dias ensolarados no meu quarto tentando terminar e quando acabei senti um alívio e aquela sensação de dever cumprido. Resolvi, então, às 2 da tarde, almoçar no Parklands. Fui até um dos cafés e pedi um fish and chips, o prato mais popular da Austrália, e fui sentar-me diante do rio Brisbane.

Sabe naquelas novelas do Manoel Carlos, em que todos são lindos e caminham pelo Leblon, com aquela Bossa Nova de trilha sonora? Pois mais ou menos assim que me senti. À margem do rio Brisbane, me sentei e observei as pessoas caminhando, os ciclistas pedalando, a barca passando, cada um ao seu ritmo, acompanhando a melodia das águas do rio. As ondas, embora calmas, não escondem as águas profundas de trajeto tortuoso que cortam a cidade.

Do outro lado do rio, os prédios novos e antigos, imponentes, confundem-se com as várias pontes que ligam os dois lados da cidade. De um, eu e meu peixe com batatas, do outro, a vida agitada do centro comercial da cidade. E aí senti aquele misto de felicidade sem motivo com um prazer inexplicável de observar coisas tão banais. O cotidiano pode ser belo. Mais ainda quando se pode sentar e ficar admirando as águas do rio Brisbane.

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